Olá
pessoal! Como estão? Como
foi a semana de vocês? Todos prontos para embarcar em mais uma viagem através
da bioquímica dos rituais indígenas? Hoje vamos conhecer mais sobre um chá
muito utilizado por indígenas do nordeste do Brasil o “chá da Jurema”. A
jurema (Mimosa tenuiflora) é um
arbusto muito comum no nordeste do Brasil. De suas raízes se faz uma bebida
psicoativa que é usada nos rituais dos Truká (a partir da Ilha de Assunção, em Cabrobó, Pernambuco), os Kambiwá (de
Ibimirim, Inajá e Floresta, Estado de Pernambuco), os Pankararu (Brejo dos
Padres - Tacaratu, Jatobá e Petrolândia, Pernambuco), os Atikum (Serra do Umã,
sertão de Pernambuco) e os Kambiwá.
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Esse chá também é conhecido como "vinho da jurema", ou "ajucá", e ele é utilizado como uma espécie de "bebida milagrosa". Seu princípio ativo é um alcalóide N,N-dimetiltriptamina
(DMT) e por isso essa planta é considerada um enteógeno (o emprego dessa
palavra é relativo à alteração da consciência quando da ingestão de certas
substâncias encontradas na natureza). No estado de transe pelo
uso do chá da Jurema os participantes dizem romper as barreiras entre passado,
presente e futuro numa comunhão com seus ancestrais e suas divindades.
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Dois alcalóides foram isolados a partir da "jurema": 5-hidroxi-triptamina, e N,N-dimetyltryptamine (Meckes-Lozoya et al, 1990a.). Outros estudos demonstraram
a presença de duas calconas:
o kukulkan A (2 ', 4'-di-hidroxi-3',
4-dimetoxychalcone); e o kukulkan B (2 ', 4', 4-tri-hidroxi-3'-metoxychalcone) (Camargo-Ricalde, 2000).
O
efeito alucinogéno que acompanha o uso de "jurema" é
semelhante ao do LSD-25, mas, aparentemente, mais rápido e de menor duração. Midríase
e hipertensão arterial são notavelmente intensas (Corbett, 1977). Os
efeitos psíquicos foram descritos por
Matos (1983) como:
"(...) Ansiedade, tonturas, ‘cabeça oca' ou leveza, ‘ondas’ de cócegas
que passam pelos músculos. Em seguida,
há um estado de' sonhar acordado
', com visão
opaca e cores
muito fortes e uma nitidez visual
aparente. As alucinações seguem, juntamente com um ambiente visual acentuada; a percepção torna-se
muito distorcida e pode haver delírio".
Estudos farmacológicos demonstraram
que os efeitos alucinogénios da N,N-dimetyltryptamine, quando
administrados por via oral, foram
inibidos pela ação das monoamino-oxidases
(MAO), enzimas insolúveis encontrados na mitocôndria (Corbett, 1977) que
catalisaram a remoção de um grupo amino alcalóide (Craig e Stitzel, 1986).
Para os efeitos alucinógenos
ocorrerem, também é necessário ingerir
substâncias que contenham inibidores de
MAO (tais como β-carbolinas), o
que irá então permitir a acção da N,N-dimetyltryptamine (Schultes e Hofmann, 1980). Estes fenômenos podem ser explicados pelo fato das β-carbolinas terem sido
encontradas na Mimosa tenuiflora (Meckes -Lozoya et al.,
1990a). A presença destas substâncias pode resultar na inibição da
MAO, o que pode levar a um
aumento na quantidade de catecolaminas no sistema nervoso central, provocando os efeitos eufóricos (Corbett, 1977).
E
aí pessoal? O que acharam? Conta aí... Até a próxima!
REFERÊNCIAS
ALBUQUERQUE, Marcos Alexandre dos Santos. O dom e a tradição
indígena Kapinawá (ensaio sobre uma noção nativa de autoria). Relig. soc.,
Rio de Janeiro , v. 28, n. 2, p. 56-79, 2008 .
O ritual do Ouricuri e a dança do Toré. Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kariri-xoko/680>.
Acesso em 04 Mai. 2015.
SOUZA, Rafael Sampaio Octaviano de et al . Jurema-Preta
(Mimosa tenuiflora [Willd.] Poir.): a review of its traditional use,
phytochemistry and pharmacology. Braz. arch. biol. technol., Curitiba, v. 51, n. 5, p. 937-947, Oct. 2008 . Disponível
em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-89132008000500010&lng=en&nrm=iso>.Acesso
em 04 Mai. 2015.
http://dx.doi.org/10.1590/S1516-89132008000500010.
Muito bom! Mais uma vez a cultura indígena nos impressiona!
ResponderExcluirOutro aspecto muito relevante também sobre a jurema é que um estudo realizado com o objetivo de avaliar a sensibilidade do Staphylococcus aureus ao extrato da jurema-preta (Mimosa tenuiflora (Wild) Poir.) pode trazer importantes descobertas. Foram isoladas 25 cepas de S. aureus de amostras de leite de vacas com histórico de mastite clínica e subclínica, submetidas ao teste de atividade antimicrobiana do extrato de M. tenuiflora. Os testes de sensibilidade in vitro foram realizados utilizando o método de difusão em meio sólido. Em seguida foram inoculados 50 μL do extrato nas seguintes diluições 1:1; 1:2; 1:4; 1:8; 1:16; 1:32; 1:64; 1:128; 1:256; 1:512. As placas foram incubadas a 37 °C, por um período de 24 a 48 h. Os ensaios foram realizados em triplicata. Observou-se halos de inibição entre 6 e 25 mm de diâmetro. O percentual de sensibilidade das amostras testadas foi distribuído em: 1:1 a 1:32 (100%); 1:64 (92%); 1: 128 (72%); 1:256 (28%); 1:512 (0%). O estudo da M. tenuiflora sobre as amostras de S. aureus testadas demonstrou que a planta tem ação antimicrobiana.
Até a próxima!
Parabéns pelo post.
ResponderExcluirO assunto é interessante, pois algumas pesquisas sobre o DMT indicam que ele é constantemente produzido pelo corpo por meio da glândula pineal e está provavelmente envolvido no processo do sonho. Outras afirmam que ela é produzida duas vezes na vida: ao nascer e ao morrer.
No Brasil, essa droga é ilegal e é classificada juntamente com a cocaína e heroína como uma droga do tipo A. Além disso, esse principio ativo também faz parte do vinho do Santo Daime e ,no Brasil, foi criado uma legislação permitindo o seu uso para fins religiosos.
Boa postagem pessoal!
ResponderExcluirMuito interessante os efeitos da Jurema no organismo e como estes realmente se assemelham ao do LSD, que é proibido no Brasil sem uso medicinal. A sua atuação ocorre em receptores de serotonina, e no sistema nervoso central (SNC) atua como agonista do receptor. Sua ação inibe o disparo de neurônios serotoninérgicos nos núcleos da rafe (parte do encéfalo responsável por fornecer serotonina ao cérebro). Isso se deve ao fato de que age como agonista sobre os auto-receptores inibitórios dessas células. O modo de ação da jurema e do LSD é ate similar não é mesmo ? Os dois agem no SNC.
Até a próxima pessoal !
GRUPO A
GRUPO E:
ResponderExcluirDMT é um neurotransmissor natural. Quando ingerido na jurema com sinergia com b-carbonilas apresenta efeito psicodélico, hipertensão arterial sistêmica e midríase. Trazendo para o campo médico, essas informações são de grande valia para profissionais engajados em Programas de Saúde do Índio pelo Ministério da Saúde, sendo fundamental, em sua territorialização, o médico dispor de vários arsenais culturais dos indígenas para cuidar deles. Ótima postagem
GRUPO G
ResponderExcluirAssim como o chá da ayahuasca, esse post muito me interessa.
O principal composto ativo é o mesmo encontrado no chá utilizado em outras religiões.
Meu interesse advém de eu ter participado de uma sessão (nome dado ao ritual religioso) e por eu ter escrito uma monografia sobre a liberdade religiosa envolvendo esse assunto: livre utilização de substâncias alucinógenas em práticas religiosas.
Bem, eu sempre achei muito curioso os efeitos e a sua utilização como uma bebida santa.
Meu relato sobre os efeitos foram bem parecidos com os descritos no post. Com apenas com um copo pequeno de chá, passei a noite inteira tendo alucinações. Resumindo bem, via aranhas e cobras saindo pelos poros dos meus braços e pernas, senti muita angustia e medo. Depois de algumas horas “vendo” isso, passei a sentir uma sensação de inchaço do corpo, como um balão e, depois, euforia, vendo luzes, como fogos de artificio, de uma forma totalmente inexplicável, ou seja, muita onda! No dia seguinte, muito mal estar e muito vômito, sem conseguir ingerir qualquer tipo de solido ou liquido.
É legal, saber que a DMT é produzido pelo nosso corpo naturalmente, e a diferença principal é a concentração quando ingerida.
Legalmente falando, A liberdade religiosa é um direito garantido, mas a questão (discutida no meu trabalho) é se deve ser limitada ou não.
Art. 5º […]: VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;
• Mas sobre a DMT ele é considerado um Psicotrópico pela, Convenção de Viena 1971, ANVISA - Resolução RDC nº 15, de 01 de março de 2007 e pelo Observatorio Brasileiro de informações sobre Drogas – OBID. Contudo sua utilização em forma de chá está legalizado para o uso estritamente religioso. O que me faz perguntar: como definir os interesses dos usuários?
• A DMT aumenta rapidamente os batimentos cardíacos, bem como a pressão sistólica e diastólica. Estudos com administração oral de β-carbolinas juntamente com DMT, induziram a um aumento dos picos dos batimentos cardíacos e pressão arterial cerca de um terço a mais que quando a DMT é administrada isoladamente após 90 e 120 minutos. Como dito anteriormente, as β-carbolinas contribuem para o aumento da quantidade de serotonina na fenda sináptica. O acúmulo excessivo pode produzir uma série de efeitos adversos, tais como tremor, diarréia, instabilidade autonômica, hipertermia, sudorese, espasmos musculares e possivelmente morte. Esse conjunto de sinais e sintomas é conhecido como síndrome serotoninérgica. Efeitos colaterais como desconforto físico ou dor crônica podem ser exacerbados pela ayahuasca (Callaway et al., 1999; Gable, 2007)
• Desculpem-me o enorme comentário, sei que passei dos limites, mas não tenho como não me empolgar com o assunto, para mim, rende horas e horas de conversa sem fim.
Obrigado pela oportunidade de discutir mais uma vez o assunto!
Referências:
ExcluirANDRADE, Sávio Câmara Vieira de Andrade. LIMITAÇÕES À LIBERDADE RELIGIOSA E SUA CONCILIAÇÃO COM OUTROS DIREITOS FUNDAMENTAIS. 2010. Editora LCR.
Constituição Federal do Brasil de 1988.
http://serv-bib.fcfar.unesp.br/seer/index.php/Cien_Farm/article/viewFile/888/894